É com imenso prazer que registro os acontecimentos e temas centrais de minha participação no Segundo Encontro de Publicação Científica. O evento foi uma atividade significativa integrante do 2º Congresso Internacional Ciência e Sociedade da UNIFSA, realizado no último dia 7 de novembro.
Fui recebido com muita honra pela Professora Drª. Kelma Gallas e pelo Professor Dr. Tony Kerley no Centro Universitário FSA. Tivemos a oportunidade de debater sobre o tema abrangente do congresso: "Educação e pesquisa como caminhos essenciais para a pacificação global". Quando recebi o convite e vi a magnitude do evento, com nomes de peso como Prof. Dr. Gildenir Carolino Santos e Prof.Dr. Milton Shitaku, confesso que pensei com meus botões goianos: "Uai, sô, o que que eu vou falar?". A orientação da professora Kelly foi fundamental: "Professor, só de você contar a história do seu periódico e das transformações, já seria muito interessante".
Foi exatamente o que me propus a fazer.
Minha palestra, intitulada "Tendências e inovações em periódicos científicos: Desafios operacionais e estratégias", objetivou apresentar uma perspectiva aprofundada, operacional e ética sobre as editorias acadêmicas. Propus um olhar sobre como podemos aumentar a eficiência e a transparência em um ambiente que se tornou progressivamente digital e aberto.

Para conduzir essa discussão, compartilhei minha jornada e a transformação que liderei como Editor-Chefe do MISES Journal: Interdisciplinary Journal of Philosophy, Law and Economics, cargo que assumi no final de 2017. O periódico, iniciado em 2013 pelo Instituto Mises Brasil, enfrentava desafios específicos. O primeiro é que não somos uma revista vinculada a uma instituição acadêmica stricto sensu; o Instituto Mises Brasil atua como um Think Tank focado na divulgação da Escola Austríaca de Economia. O segundo desafio era o formato: uma revista impressa. No início, a preocupação era mais com a estética de um livro do que com a agilidade científico.
No final de 2017, percebi que era imperativo migrar para o formato on-line e aberto. Tivemos uma grande janela de oportunidade: o lançamento do OJS3 (Open Journal Systems). Decidi migrar todo o nosso acervo para a nova plataforma, o que representou um recomeço com uma nova identidade visual e funcional.
A decisão mais crucial tomada em 2018 não foi tecnológica, mas estratégica: associar o Instituto Mises Brasil à ABEC Brasil (Associação Brasileira de Editores Científicos), por recomendação da querida professora Ms. Suely de Brito Clemente Soares, fundadora da ContentMind. Essa associação facilitou meu acesso a processos editoriais e éticos robustos. Meu foco saiu da simples migração tecnológica (papel para internet) e passou para a otimização dos processos editoriais.
Para impulsionar a internacionalização da revista – processo facilitado pelo próprio tema da Escola Austríaca – realizei uma atualização do Corpo Editorial. Hoje, contamos com membros de 27 instituições e 8 países (Brasil, EUA, Portugal, Itália, China, Argentina, Espanha e Taiwan), o que oferece uma tração importante para aumentar nosso impacto acadêmico e volume de citações. Em 2019, introduzi o uso do Similarity Check para prevenção de plágio.
Em 2020, adotamos o modelo de publicação continuada, o que considero um divisor de águas. Esse formato permite que artigos aprovados e diagramados sejam publicados imediatamente, eliminando a espera e aumentando a velocidade da comunicação acadêmica. Outra implementação importante ocorreu em 2021: a integração ao ReviewerCredits. Esse sistema fornece acreditação certificada para os avaliadores ad hoc. Como não podemos pagar pela avaliação, ele serve como um incentivo para que os bons avaliadores deem prioridade aos nossos manuscritos, auxiliando a resolver o desafio contínuo do prazo de peer review.
Todo esse trabalho de inovação tem se concentrado, mais recentemente, na revisão de políticas, incluindo direitos autorais, ética e o processo de avaliação por pares. O ponto alto da minha apresentação foi a discussão detalhada das Questões Éticas e Diretrizes sobre o Uso de Inteligência Artificial Generativa (GenAI).
Minha posição e a política adotada pelo MISES Journal são claras: autores que utilizam GenAI devem, obrigatoriamente, declarar seu uso no manuscrito. A IA é reconhecida como uma ferramenta de apoio para otimizar tarefas rotineiras (como correção gramatical, busca bibliográfica e formatação), liberando o pesquisador para o trabalho intelectual.
Contudo, insisto que a responsabilidade final pela precisão do trabalho publicado é inteiramente do autor. Isso inclui a verificação minuciosa de referências, pois as ferramentas de GenAI podem "inventar" ou "fabricar" citações devido à sua lógica de sintaxe de palavras, e não de inteligência propriamente dita. Por essa razão, ferramentas de IA não podem ser listadas como autoras.
Dirijo-me também aos avaliadores, reforçando uma diretriz crucial: eles não devem submeter o manuscrito para análise em ferramentas de IA generativa. Fazer isso pode violar a confidencialidade do documento e destruir o ineditismo da obra, visto que a IA pode usar esse conteúdo para alimentar futuras buscas.
Em minha rotina pessoal de pesquisador, utilizo a IA de forma estratégica. Uso-a, por exemplo, como um "pré-avaliador severo" que me ajuda a encontrar os gaps teóricos e a fortalecer o artigo antes de submetê-lo a um periódico. Esse "prompt" foi um presente que aprendi como o Professor Mario Sergio Teixeira Marques, da SKEMA Belo Horizonte, em um seminário que conduziu na EnANPAD 2025. É crucial que os pesquisadores iniciantes entendam que a IA otimiza a rotina da pesquisa, mas não substitui o ato de pensar e discutir os resultados.
Com todas essas transformações, o periódico alcançou números expressivos. Saímos de cerca de 300 acessos para a casa dos 80.000 downloads por ano. Demonstramos que focar na qualidade e na transparência traz resultados.

Mantenho a convicção de que, fazendo um trabalho sério, com integridade e rigor (mantendo, por exemplo, um alto índice de reprovação, atualmente em 77%), os indicadores acadêmicos seguirão o caminho natural.
O percurso de inovação do MISES Journal, que tive a honra de conduzir, ilustra que a publicação científica de sucesso é como a transformação de um acervo estático em um laboratório de pesquisa dinâmico. O valor não está apenas na "estética da capa" ou na gramatura do papel, mas sim na agilidade do processo, na ética editorial e na capacidade de usar a tecnologia para disseminar o conhecimento de forma rápida, transparente e íntegra.
Para ver os slides da apresentação, clique aqui




