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Palestra ‘A Cidade Libertária’ Liberty Open

Economista, PhD em Transportes

Escrito por Adriano Paranaiba

Professor e pesquisador do Instituto Federal de Goiás (IFG), Vice-Presidente Acadêmico do Instituto Mises Brasil e Conselheiro do Instituto Livre Mercado. Com doutorado em Transportes, dedico-me a aplicar os princípios do livre mercado para desmistificar os gargalos logísticos e regulatórios no Brasil.

Publicado 17/08/2025

Amigos, vou começar a fazer publicações sobre como foram minhas palestras, graças à ajuda do NotebookLM da Google.

Olá, pessoal!

Hoje quero compartilhar um pouco do que discutimos na minha palestra, que aconteceu no dia 16 de agosto de 2025, na cidade de Aracajú – Sergipe, durante o Liberty Open. O título da palestra foi “A cidade libertária: da utopia para a realidade brasileira.

Minha grande provocação foi: o verdadeiro problema das nossas cidades não são o congestionamento, a poluição, a habitação ou a segurança, mas sim a nossa incapacidade de entender a relação de causa e consequência. As secretarias e os planejadores urbanos muitas vezes não atacam a raiz do problema, focando nos sintomas. Para mim, a questão central é como nós configuramos o espaço urbano. A maneira como nossos planejadores desenham as cidades é o que causa esses problemas, e não o carro, como muitos pensam.

Peguei o livro "Princípios de Economia Política" de Carl Menger, e a primeira frase dele já diz tudo:

"Todas as coisas são regidas pela lei da causa e do efeito. Esse grande princípio não sofre exceção; seria inútil procurar algum exemplo contrário, no âmbito empírico".

É um erro grave de análise, como vemos em "Correlações Espúrias" (pode acessar aqui) – tipo, mais acidentes de carro em ferrovias com importação de petróleo da Noruega, ou mortes por afogamento em piscinas com aparições do Nicolas Cage. Alta correlação não significa causalidade.

A Desilusão Sinóptica do Planejador Central

Essa mentalidade de planejar o espaço urbano vem de longe. Um exemplo é olhar o mapa de Vienna em 1844: as cidades cresciam organicamente em torno de centros antigos. Com a Revolução Industrial, as pessoas migravam para as cidades para diminuir custos de transação, mesmo que Marx falasse em exploração. O primeiro grande plano urbanístico foi o Plano Haussmann em Paris, lá por 1860. Napoleão III, para evitar as revoluções que facilmente bloqueavam as ruas estreitas, criou os boulevards: avenidas largas com prédios de mesmo tamanho, sempre apontando para uma instituição pública no fundo, para mostrar "quem manda na bagaça".

Essa ideia se estendeu para a economia. Tivemos lá nos anos 30  a popularização da teoria de Lugares Centrais de Christaller, falando em planejamento econômico, uma ideia que o Brasil comprou muito. Mas em 1974, o Prêmio Nobel de Economia foi dividido entre Gunnar Myrdal, que defendia o planejamento estatal como motor da economia, e Hayek, que pensava o exato oposto: a ordem espontânea. Uma das melhores frases de Hayek, que quase ninguém cita, está em "Lei, Legislação e Liberdade":

"todos os que se fascinam com os belos planos resultantes dessa abordagem, por serem ‘tão ordenados, tão visíveis, tão fáceis de entender’, são vítimas da ilusão sinóptica e esquecem que a aparente clareza desses planos se deve ao fato de o planejador desconsiderar todos os fatos que desconhece."

Isso é sensacional! Basicamente, ele está dizendo que o conhecimento humano é limitado. A inteligência artificial e o poder computacional não vão resolver isso, porque também produzimos muito mais dados. Planejar a cidade se torna cada vez mais impossível.

Jane Jacobs: A Libertária do Urbanismo

Eu fico "puto" quando vejo arquitetos e urbanistas no Brasil lendo Jane Jacobs, mas não seguindo suas ideias. O livro dela, "Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas", é sensacional, e o Rothbard a chamava de libertária. Ela defendia:

  • Mistura de usos e pessoas: Pessoas morando e trabalhando perto, para não precisarem do carro.
  • Quadras curtas: Para ter várias possibilidades de caminho e reduzir congestionamento.
  • Prédios de idades diferentes juntos: Para que os preços dos imóveis variem e permitam que pessoas de diferentes rendas vivam próximas.
  • Densidade suficiente: Gente morando perto, o que é essencial para a vida urbana. Eu mesmo moro em Goiânia, que não tem limitação de andares, e isso ajuda a ter tudo perto, e uso pouco o carro.

O Fracasso do Planejamento: Brasília vs. Roma

Vejam Brasília, a cidade mais planejada do Brasil. É tudo setorizado: bairro de oficinas, bairro de ferro-velho, tudo longe. Se seu carro quebrar, você está ferrado. Para comprar um cigarro em Brasília, você pode morar a 300 metros do posto, mas o caminho mais curto que Lúcio Costa planejou (sim, o "desenhista" foi ele, não o Niemeyer que só fez uns prédios "fálicos") te obriga a andar 600 metros.

Compare com Roma, uma cidade "orgânica", construída e destruída várias vezes. Na Piazza Navona, você anda 300 metros e encontra tudo: hotéis, farmácias, residências, lojas. Lá, faz sentido proibir carros porque as pessoas podem fazer tudo a pé.

A densidade de Brasília é baixíssima no centro, forçando os mais pobres para longe. Por isso, fazer metrô em Brasília é inviável, porque as pernas são longas demais. Em Buenos Aires, que é muito mais concentrada, o metrô funciona porque conecta tudo, e as pessoas o usam para tudo. Buenos Aires teve o primeiro metrô da América, e ele era privado, assim como em Londres!

O Papel das Autoridades Informais e as Cidades Privadas

Favelas, para mim, são o resultado do fracasso do planejamento. Ninguém reclama das cidades da Grécia, que são adensadas, porque lá não é "pobre". Meu amigo Sanfod Ikeda, da Escola Austríaca, diz que precisamos de menos intervenção estatal e mais autoridades informais, como associações de moradores, igrejas e associações comerciais. As pessoas conseguem se organizar.

Um exemplo vivo disso são os shopping centers. Eles são como cidades privadas! Lojistas se unem, organizam as ruas, a segurança, o ar-condicionado. É tudo organizado por eles. E o shopping dá Wi-Fi, ar-condicionado, shows de graça. Por quê? Porque ele precisa de gente! Um shopping de sucesso é aquele que tem muita gente dentro; uma hora alguém vai comprar algo. A concentração de pessoas e a densidade fazem as coisas acontecerem. Se um shopping não dá certo, os empresários se reorganizam, mudam o modelo, e tudo por ordem espontânea, sem legislação central.

O Ancapistão na Internet e as Cidades Privadas do Futuro

Sempre me perguntei sobre o "Ancapistão", o sonho libertário de uma terra sem Estado. O Estado já se apropriou de tudo. Mas e se não precisássemos de um espaço físico? E se o "Ancapistão" fosse na internet?

Recentemente, conheci o projeto Próspera. É uma cidade privada, ou melhor, uma rede de conexão de empresas ao redor do mundo. Elas escolhem a legislação que querem seguir, baseada em contratos voluntários. Os empresários, que entendem o negócio, definem as regras. Ninguém é obrigado a assinar, diferente de nós com o "contrato social" do Estado.

No Brasil, temos a IPÊ City começando, uma Próspera brasileira. O objetivo desses projetos é ter menos regulação estatal, menos regras feitas por quem não entende o negócio, que só atrapalham o livre mercado. É o livre comércio que nos trouxe a prosperidade que temos hoje, muito superior à de séculos atrás.

Combatendo a Regulação e Promovendo a Liberdade

Para ajudar empreendedores, falei da calculadora do impacto regulatório (CIRE)para o público de Sergipe. Com ela, empreendedores podem quantificar o custo da regulação estatal e apresentar isso em audiências públicas. Não é mais "vai atrapalhar muito", mas sim "vai custar tantos milhões". Lançamos também um livro gratuito "Regulação para Empreendedores, com o manual da Calculadora, e sobre o que fazer quando se descobre o quanto o Estado “te ferra”.

E, para fechar, falei do meu novo livro de introdução à economia, focado em ser um manual para sala de aula. Ele fala de falhas de mercado, claro, mas também aborda as falhas de governo, algo que os manuais tradicionais não fazem. A ideia é trazer o pensamento liberal para dentro das universidades.

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