É um dos passatempos favoritos dos detratores do livre mercado: resgatar a "Guerra da Farinha" de 1775, na França, para usá-la como suposta prova histórica de que a desregulamentação é uma receita infalível para o desastre social. Segundo essa narrativa, o ministro Anne-Robert-Jacques Turgot teria provocado fome, especulação e caos ao ousar liberar o comércio de grãos, demonstrando a suposta "falha" inerente do laissez-faire.
A realidade, no entanto, é o exato oposto. Como demonstra o professor Fábio Barbieri em sua obra fundamental A Economia do Intervencionismo, a crise de 1775 não evidencia o fracasso da liberdade econômica, mas sim a colheita amarga de décadas do mais brutal dirigismo estatal do Antigo Regime. Antes das reformas de Turgot, o mercado de grãos francês era uma teia asfixiante de proibições policiais, monopólios regionais licenciados e controle rígido sobre os produtores. O intervencionismo crônico do Estado gerou a escassez estrutural e os preços artificialmente altos que sufocavam a população.
Quando Turgot assumiu o cargo e permitiu que os produtores negociassem livremente seus preços, o mercado começou a sofrer os choques de transição inerentes à desorganização estatista prévia. Como a reestruturação dos mercados demanda tempo e os problemas criados por anos de intervencionismo não desaparecem da noite para o dia, abriu-se espaço para o que Barbieri batizou com precisão de Efeito Krugman: o fenômeno ideológico perverso em que os problemas originados pelas falhas do próprio Estado (ou por sua intervenção) são imediatamente atribuídos ao livre mercado, gerando novas e intensas demandas por controle estatal — tal como a exigência popular pelo tabelamento do preço do pão após o encarecimento temporário do trigo.

O erro primário dos estatistas é metodológico e histórico. Como Murray Rothbard enfatiza, cada evento histórico é uma resultante complexa e única de muitos fatores causais. Não se pode refutar a ciência econômica culpando a liberdade por uma crise material que, na verdade, foi deflagrada por graves quebras de safra combinadas a um histórico sufocante de controle de estoques. Na tipologia praxiológica de Rothbard, tratava-se de um sistema sufocado pela "intervenção triangular", situação em que o Estado interfere agressivamente nas trocas voluntárias entre os indivíduos.
Preços altos decorrentes de uma escassez real funcionam como um sinal vital que atrai a oferta de regiões abundantes para as áreas onde a fome impera. Contudo, a turba exigia o tabelamento e a velha ilusão da "economia moral". Ludwig von Mises demonstrou que a intervenção isolada nas operações de mercado, como os controles de preços, apenas interrompe o serviço para os consumidores e falha em atingir o resultado pretendido pelo governo. A imposição de limites artificiais, seja por decretos reais ou por saques populares (taxation populaire), gera escassez imediata e eleva ainda mais os custos reais.
Quando os manifestantes de 1775 saquearam propriedades impondo um "preço justo" pela força bruta, eles destruíram o único incentivo que faria a comida chegar aos estômagos vazios. Exigir que a realidade material se curve a decretos políticos ou exigências populares não cria pão. Turgot não errou; ele tentou devolver a racionalidade a um ambiente totalmente deformado por uma relação hegemônica de comando e obediência, onde a culpa pela escassez crônica sempre recai, injustamente, sobre a liberdade.
Cair na armadilha do Efeito Krugman e usar a Guerra da Farinha como troféu contra o libertarianismo é aplaudir o suicídio econômico disfarçado de justiça social. Turgot compreendeu, séculos antes de seus detratores, que a verdadeira economia moral não provém da coerção, mas das trocas voluntárias e do respeito irrestrito à propriedade privada. A prosperidade exige liberdade, e a história, quando analisada com o rigor da Escola Austríaca de Economia, não perdoa os defensores da tirania estatal.
Referências:
Barbieri, F. (2013). A economia do intervencionismo. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil.
Mises, L. (2017). Ação humana. LVM Editora.
Paranaiba, A. (2023). Para entender Rothbard. LVM Editora.
Rothbard, M. N. (1995). Economic Thought Before Adam Smith. LvMI.




